telefone abtcp zambo +55 11 3874.2700   facebook zambo abtcp linked in zambo abtcp

seja um associado

ABTCP ESTRUTURA REDE DE INOVAÇÃO EM PROL DA COMPETITIVIDADE DO SETOR

Com o intuito de colocar o conceito de inovação aberta em prática, Associação assume a liderança na organização de um cluster robusto, capaz de posicionar a indústria nacional de celulose e papel entre os futuros players globais da bioeconomia
 

As potencialidades da indústria de base fl orestal apontam para um cenário futuro repleto de novas possibilidades. Da madeira, principal matéria-prima usada na fabricação de celulose e papel, é possível extrair uma série de componentes úteis à geração de produtos que ganharão espaço na almejada bioeconomia. Para consolidar a economia que fomenta o uso sustentável de recursos renováveis na criação de produtos demandados pela sociedade atual, contudo, é preciso trilhar o desafi ante caminho da inovação. Encontrar alternativas economicamente viáveis para complementar ou substituir o amplo portfólio de origem fóssil requer um olhar de futuro apurado aliado a investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D).

A biotecnologia desponta entre as frentes estratégicas investigadas pela indústria de celulose e papel para incrementar a sua própria competitividade e ampliar o seu portfólio atual. Por meio dela, é possível encontrar materiais genéticos de culturas fl orestais de melhor produtividade, tanto para as atividades atuais como para a produção de bioenergia e biocombustíveis. Em paralelo, os avanços da nanotecnologia indicam um trajeto eficaz para aumentar a resistência de alguns tipos de papel a partir de nanofi brilas de celulose e potencializar oportunidades para novos negócios, estendendo a atuação a outros setores.

O último Índice de Inovação Global 2018, publicado anualmente pela Universidade Cornell, pelo Insead e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), situa o Brasil na 64a posição, em um ranking de 126 países. O resultado, apresentado em julho último, mostra um ganho de cinco posições em relação ao ano anterior. Entre as áreas em que o País se destacou, estão gastos com P&D, importações e exportações líquidas de alta tecnologia; qualidade de publicações científicas, e universidades.

Apesar do avanço recente, o Brasil ainda se posiciona atrás de outros países latino-americanos, a exemplo do Chile – o melhor classifi cado da região, no 47° lugar; da Costa Rica – que está em 54° lugar, e do México, em 56° lugar. O topo do ranking é ocupado pela Suíça, em primeiro lugar; Países Baixos, em segundo, e Suécia, em terceiro.

Atenta a essa necessidade de investir mais fortemente em diferentes frentes de inovação, a Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) reforça o seu papel como protagonista técnica do setor e apresenta o seu mais recente projeto: uma Rede de Inovação destinada a capturar o interesse de empresas e associados individuais dispostos a contribuir com temas diversos e participar de projetos pré-competitivos. O objetivo é que esses projetos sejam executados por instituições de P&D parceiras da ABTCP e que a Associação seja responsável pela gestão burocrática deles, atuando como intermediadora dos executores e proponentes interessados.

Darcio Berni, diretor executivo da ABTCP, esclarece que se trata de mais um capítulo da dedicação contínua da Associação para atender não só às demandas atuais como às que pautarão as próximas décadas da indústria de celulose e papel. “A ABTCP é uma entidade que construiu uma sólida reputação no setor ao longo das suas cinco décadas de atuação. Como propulsora do desenvolvimento técnico da indústria de celulose e papel, temos a neutralidade a nosso favor, aspecto que certamente contribuirá com o propósito de atuar como intermediadora e facilitadora de projetos colaborativos”, enfatiza ele.

Exemplo desse trabalho contínuo que se desenrola há anos e que levou ao amadurecimento da ideia de estruturar uma Rede de Inovação foi a criação a Comissão de Biorrefinaria, em 2014. “A ideia era que essa comissão atuasse como gestora de um estudo chamado Proposta de Criação do Centro Tecnológico de Celulose e Papel, elaborado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), com apoio do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC)”, contextualiza Viviane Nunes, coordenadora técnica da ABTCP, salientando que os membros da Comissão tiveram participação indispensável na validação do estudo e de todas as decisões tomadas ao longo dele.

“A Comissão de Biorrefinaria da ABTCP tem por objetivo fomentar discussões que contribuam para o desenvolvimento tecnológico do setor de celulose e papel no contexto das biorrefinarias e que sejam de interesse comum das empresas e entidades participantes, ainda em estágio pré-competitivo”, pontua Gabriela Lombardo Maranesi, atual coordenadora da Comissão de Biorrefinaria da ABTCP e coordenadora de P&D e Assistência Técnica ao Cliente da Lwarcel Celulose.

Os resultados do estudo, realizado pelo CGEE com apoio do MCTIC, foram apresentados no Congresso ABTCP 2016, em uma Sessão Técnica de Biorrefinaria. “A partir dos resultados encontrados, a comissão passou a avaliar a construção de um centro tecnológico específico ao desenvolvimento de pesquisas relacionadas a biorrefinarias. O investimento, no entanto, era muito elevado, fato que levou à ideia de partir para outra frente estratégica e criar uma Rede de Inovação”, conta Viviane sobre a iniciativa de reunir empresas do setor, institutos de pesquisa e fontes de financiamento para alavancar o desenvolvimento de pesquisas.

A ideia ganhou força com a apresentação de Carlos Alberto Farinha, vice-presidente da Pöyry Tecnologia, também no Congresso ABTCP 2016. Na ocasião, Farinha fez alarde sobre a necessidade de articulação setorial para o fortalecimento da competitividade de longo prazo. Ele defendeu que a indústria nacional criasse uma agenda estruturada e conjunta para enfrentar os desafios que surgirão com o novo modelo de negócio. Citando exemplos de práticas conjuntas que já acontecem no mercado global, como o Road Map feito pela Confederation of European Paper Industries (CEPI), Farinha enfatizou que os players brasileiros não deviam ficar alheios aos desenvolvimentos que levam à inovação nem tentar acompanhá-los somente de forma individual.

Já no início de 2017, a ABTCP colocou o planejamento em prática, reunindo quatro empresas do setor para realizar um trabalho em parceria com o Instituto Senai de Inovação Biossintéticos, no Rio de Janeiro-RJ. O propósito deste primeiro projeto colaborativo era apontar alternativas para fortalecer as empresas brasileiras de celulose e papel como potenciais precursoras do desenvolvimento tecnológico que levará à bioeconomia, de uma forma pragmática e estruturada. “A viabilização de processos capazes de produzir uma variada gama de produtos a partir de material lignocelulósico transcende os aspectos técnicos, fato que demanda uma abordagem holística do problema e torna indispensável avaliações econômicas”, aponta Paulo Coutinho, gerente do Instituto Senai de Inovação. O aspecto econômico, sublinha ele, deve caminhar de braços dados com o desenvolvimento tecnológico, favorecendo a gestão dos riscos e eficiência na utilização dos recursos disponíveis.

Dando enfoque à parte técnica, João Bruno Valentim, engenheiro de Processos do Instituto Senai de Inovação de Biossintéticos, comenta que esse primeiro projeto colaborativo com intermédio da ABTCP consistiu no desenvolvimento conjunto (Instituto e Empresas) de uma metodologia capaz de realizar avaliações técnico-econômicas robustas de tecnologias de processamento de biomassa lignocelulósica que, se agregadas a uma planta de celulose existente, têm o potencial de expandir e diversificar o portfólio de produtos das empresas, convertendo-as em biorrefinarias de base florestal.

Basicamente, a função do ISI Biossintéticos foi montar simulações de três processos de biorrefino em um software comercial (Aspen Plus) e, a partir dos resultados dessas simulações, realizar a avaliação econômica destes processos por meio de estimativas dos custos de Investimento (CAPEX) e operação (OPEX). Já o papel nas empresas foi fornecer alguns inputs das simulações (composição de matéria-prima, por exemplo) e validar premissas adotadas pelo ISI, bem como as simulações realizadas. “A interação se deu por meio de reuniões de acompanhamento gerencial na ABTCP, nas quais se discutiam aspectos gerais dos processos e o cronograma de atividades. Também aconteceram seminários técnicos no ISI Biossintéticos, onde participaram dois pesquisadores de cada empresa. Nesses seminários, os processos estudados foram discutidos em detalhes ao longo de três dias, gerando discussões enriquecedoras que resultaram em um trabalho extremamente detalhado, que leva em consideração especificidades da indústria brasileira indispensáveis para que os resultados tenham aderência diante da realidade do País”, detalha Valentim.

O pesquisador do ISI Biossintéticos alerta que a maioria dos trabalhos publicados em revistas científicas que se propõem avaliar cadeias de valor baseadas em matérias-primas renováveis e que utilizam simulações de processos está baseada em realidades de países europeus e nos Estados Unidos – constatação que indica a necessidade de se obter as propriedades do eucalipto necessárias para refinamento dos modelos de processo construídos. “Foram obtidos diversos resultados específicos para os processos avaliados (pré-tratamento a vapor, hidrólise e fermentação dos açúcares de segunda geração) que, além de apontarem os gargalos tecnológicos para utilização de eucalipto nestes processos, permitiram concluir que tais processos ainda não se encontram totalmente maduros, mesmo que já existam algumas plantas de escala industrial utilizando-os para processar biomassa lignocelulósica como a palha de cana de açúcar”, exemplifica.

 A iniciativa de trabalhar mais sistematicamente em uma agenda conjunta também foi abordada por CEOs de grandes companhias em um Painel de Discussão promovido durante o Congresso ABTCP 2017. No evento, realizado em outubro passado, Cristiano Teixeira, diretor-geral da Klabin, Marcelo Castelli, presidente da Fibria, Rodrigo Davoli, presidente da International Paper, e Walter Schalka, presidente da Suzano Papel e Celulose, sinalizaram a ausência de um cluster organizado para incitar o setor a trabalhar de forma conjunta no desenvolvimento de pesquisas que definirão as medidas estratégicas das próximas décadas. Na ocasião, eles se comprometeram a consolidar tal parceria, por intermédio da ABTCP.

O trabalho já encabeçado pela ABTCP, como gestora técnica de projetos colaborativos, ganhou ainda mais fô lego diante do compromisso das quatro grandes companhias do setor. “No início deste ano, recolhemos todos os trabalhos que estavam sendo realizados pelas nossas Comissões Técnicas e começamos a estruturar o projeto da Rede de Inovação”, recorda Viviane sobre a etapa cumprida recentemente.

“O projeto passou a ser estruturado de maneira mais sistemática, pensando em formas de engajar as empresas do setor. Para isso, contamos com a participação de diversos gerentes da área de Inovação das companhias para traçar as estratégias necessárias”, adiciona Nestor de Castro Neto, que lidera o projeto encabeçado pela ABTCP. “Fechada a proposta inicial, apresentamos àqueles quatro CEOs que lançaram a ideia para a ABTCP no último Congresso. Eles validaram o projeto e, a partir daí, passamos a agendar reuniões com outras empresas do setor para apresentar a iniciativa e dar início prático à estruturação da Rede”, contextualiza ele.

Com um modelo de governança já bem estruturado, que segue sendo apresentado ao setor, resta concluir aspectos mais formais, como a definição dos termos legais que irão direcionar o funcionamento prático da Rede.

“O desafio que se coloca agora é o contratual, já que envolve aspectos jurídicos, de propriedade intelectual e de garantias concorrenciais, temas muito sensíveis e que precisam de um bom alinhamento para não se tornarem barreira a um forte engajamento no momento seguinte”, sublinha Paulo Pavan, representante do Comitê de Inovação da ABTCP e gerente geral de Tecnologia e Inovação Industrial da Fibria, sobre o trâmite em andamento.

Instituições de pesquisa podem atuar como braço técnico e financeiro no desenvolvimento de projetos

O trabalho de estruturação da Rede de Inovação, promovido pela ABTCP, incluiu ainda um detalhamento das características técnicas e do funcionamento prático de diferentes instituições de pesquisa. Conforme contextualiza Pavan, a Associação mapeou centros de P&D de referência que pudessem integrar a Rede com estrutura e capital humano capacitado a diferentes frentes de pesquisa.

Unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) estão entre os centros de pesquisa procurados pela ABTCP para a parceria. José Luis Gordon, diretor de Planejamento e Gestão da Embrapii, explica que a entidade é responsável pelo credenciamento de laboratórios de departamentos de universidades, Institutos Senai de Inovação e instituições privadas sem fins lucrativos aptos a atender às demandas do setor empresarial. “Credenciamos centros de referência plenamente capacitados para trabalhar em conjunto com o setor empresarial. Em vez de investir na construção de centros, nossa proposta é buscar institutos já em funcionamento, capazes de atender às demandas do setor empresarial de uma forma ágil e desburocratizada”, esclarece sobre a missão da Embrapii. Atualmente, há 42 centros com a chancela Embrapii distribuídos por todo o País. “A premissa para começarmos a discutir a competitividade futura da indústria nacional passa pela inovação, que, cada vez mais, deixa de ser fechada em uma única empresa, profissional ou instituição, e torna-se mais colaborativa, agregando conhecimentos de uma série de instituições. Partindo dessa premissa básica para pensar em inovação, a parceria entre empresas e instituições de pesquisa é fundamental, considerando que ambos detêm muito conhecimento”, reforça Gordon.

Além do conhecimento complementar que essa interação pode promover, o diretor de Planejamento e Gestão da Embrapii sublinha que há de se considerar o custo elevado de reunir todos os conhecimentos internamente, principalmente para empresas de menor porte. “Tomando a indústria de celulose e papel como exemplo, é difícil vislumbrar em uma mesma estrutura todas as pautas que irão determinar a competitividade dos próximos anos, como nanotecnologia, Big Data, biomateriais, entre outros. Ter acesso a esse conhecimento diverso que os centros de pesquisas oferecem, com diferentes competências tecnológicas, dificilmente seria viável de forma isolada, somente com a própria estrutura interna”, ressalta ele sobre a proposta da Embrapii de reunir centros de pesquisas com diferentes competências tecnológicas, capazes de contribuir com o setor empresarial nos seus respectivos processos inovativos.

O Instituto Senai de Inovação em Biomassa, em Três Lagoas-MS, destaca-se como uma das Unidades Embrapii em atuação. Referenciado no ano passado, após passar por auditoria, o Instituto surgiu de uma demanda da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2012, com intuito de aumentar a competitividade da indústria nacional. “Neste sentido, foi feito um plano de ação apoiado em três vertentes: formação de pessoas por meio das Escolas do Senai, já que uma indústria forte exige profissionais qualificados; execução de ensaios, análises e consultorias mais simplificadas, que colaborassem com a indústria em demandas diversas, por meio dos Institutos de Tecnologia e, finalmente, a condução de projetos de inovação por meio da criação de uma rede de institutos de inovação em diferentes temáticas”, conta Carolina Andrade, diretora do Instituto Senai de Inovação em Biomassa, sobre o processo que levou ao surgimento desse e dos demais institutos.

Embora todos os Institutos Senai de Inovação sigam o mesmo modelo de gestão, cada um tem missões específicas. A missão do de Biomassa, revela Carolina, é ser referência internacional no âmbito de transformação da biomassa. “Quando o ssunto é biomassa, falamos também da proximidade com o setor de papel e celulose, pois é um dos setores que já atua fortemente na transformação dela e é demandante de desenvolvimentos tecnológicos. Para transformar essa biomassa, usamos uma combinação de processos químicos e biológicos, trabalhando com os conceitos de biorrefinaria e das demais questões de economia integrada, assentada numa base biológica”, contextualiza ela sobre as frentes de atuação do Instituto, instalado em Três Lagoas desde 2013. “Hoje, nosso quadro fixo reúne cerca de 20 pesquisadores, além de um grupo flutuante de bolsistas, que varia de 10 a 15, conforme o portfólio de projetos em andamento”, completa sobre a estrutura física de 4,5 mil m2 construídos, que conta com 12 laboratórios diferentes e área para planta piloto.

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) atua como Unidade Embrapii nas áreas de Desenvolvimento de Tecnologias de Materiais e Desenvolvimento e Escalonamento de Processos Biotecnológicos. De acordo com Yuri Tukoff-Guimarães, responsável pelo Departamento de Análise de Mercado e Parcerias do IPT, o Instituto possui forte potencial de atuação em áreas como gestão de ativos florestais, biotecnologia, biomassa e sustentabilidade de recursos florestais e hídricos, que podem gerar projetos passíveis de recebimento de recursos não reembolsáveis por meio de fomentos operados pelo IPT. “Há áreas diretamente relacionadas ao setor de papel e celulose e outras de apoio, mas igualmente importantes para atender às demandas dessa indústria”, resume. Na prática, o trabalho oferecido pelo IPT se divide em quatro frentes principais: ensaios, medições, calibrações e serviços correntes; serviços tecnológicos, assessorias e consultorias; Pesquisa, desenvolvimento, e Inovação; Educação Tecnológica, com cursos in company e mestrados profissionalizantes.

A Unidade Embrapii Tecnogreen, resultado da união de pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), nas áreas de Engenharia Química, Minas, Petróleo, Metalurgia, Materiais e Civil, destaca-se como mais um exemplo de centro atuante que pode ser parceiro do setor no desenvolvimento de pesquisas. A Unidade foi criada com núcleo no Laboratório de Tratamentos de Resíduos, Reciclagem e Extração (LAREX) atua em projetos de reciclagem, tratamento de resíduos, tratamento de efluentes, biossorção, biorremediação, biolixiviação e processos químicos extrativos de alta temperatura ou em meio aquoso. Assim, a junção destes laboratórios tem permitido desenvolver projetos em sistemas complexos envolvendo equipes multidisciplinares com uma visão holística.

Jorge Alberto Soares Tenório, responsável pela Unidade Embrapii Tecnogreen, informa que, atualmente, a maior parte das patentes brasileiras advém da inovação feita internamente pelas empresas. “Normalmente, este tipo de inovação traz melhorias de processo ou até mesmo gera um novo produto, mas não chega a ser, em sua maioria, inovação disruptiva, aquela que de fato quebra paradigmas”, pontua. Na visão dele, agregar o conhecimento de especialistas que atuam nos institutos e academias ao dos profissionais que compõem as equipes internas das companhias pode ser um mecanismo útil para promover outros tipos de inovação. “As Unidades Embrapii atuam nesse tipo de parceria, unindo o conhecimento das universidades e de centros diversos às necessidades da indústria – prática que ainda é pouco explorada no Brasil em prol da inovação. “Os centros de pesquisa podem entrar em cena como um parceiro independente ao core das empresas, dispensando os custos de manutenção de um staff permanente”, aponta Soares. Em abril último, um Road Show chamado Inovação na Prática para o Setor de Papel e Celulose foi promovido pela ABTCP, em parceria com a Embrapii. Representantes de empresas do setor puderam visitar sete unidades de pesquisa com a chancela Embrapii, situadas em São Paulo, Campinas, Piracicaba e Três Lagoas, e conferir de perto as tecnologias de ponta e o potencial de pesquisa oferecidos pelas instituições. Além de reunir instituições de pesquisa e centros tecnológicos capazes de atender às diferentes demandas da indústria nacional, a Embrapii atua em outra frente importante ao desenvolvimento de projetos: “fomentamos projetos de interesse do setor empresarial, a fim de incrementar a sua competitividade e contribuir com o seu crescimento, ou ainda, com a criação de mercados”, explica Gordon, informando que um terço do valor dos projetos com participação da Embrapii é financiado pela entidade com recursos não reembolsável, aquele que não precisa ser devolvido. “Como o risco é inerente ao processo de inovação, a política pública deve desempenhar esse papel de mitigá-lo ao setor empresarial. Os recursos não reembolsáveis oferecidos pela Embrapii são instrumentos com este fim, fazendo com que os dois terços restantes do projeto sejam divididos entre o setor empresarial e os centros de pesquisa participantes”, justifica, detalhando o trâmite.

Embora seja um instrumento ainda pouco usado no Brasil, os recursos não reembolsáveis já são prática comum em países desenvolvidos. “Hoje, o setor privado brasileiro investe menos em inovação do que o setor público. O modelo Embrapii visa alavancar de forma razoável o valor de investimento privado em inovação”, completa Gordon.

Ainda de acordo com o diretor de Planejamento e Gestão da Embrapii, os projetos em andamento demonstram que a iniciativa tem dado certo. “Temos atingido uma variedade grande de setores, encabeçando projetos na área de papel e celulose, saúde, robótica, automação e sustentabilidade, entre outras”, elenca.

A Finep também tem adequado as suas atividades de financiamento à realidade atual, que reflete um número crescente de projetos colaborativos. “Temos bservado um número cada vez maior de projetos que são realizados em parceria, uma que vez o nível de avanço em cada um dos segmentos técnicos é tão intenso e veloz que é muito complexo para qualquer empresa, mesmo que seja líder e de grande porte”, avalia William Respondovesk, gerente do Departamento Operacional de São Paulo da Finep.

Entre a grande diversidade de novos instrumentos e programas oferecidos pela Finep, está o Finep Conecta, que disponibiliza taxas atrativas para projetos que têm ao menos 15% de seu orçamento destinado a instituições de pesquisa. “Nós também permitimos for mas novas de uso dos recursos concedidos, a exemplo da aquisição de empresas dentro de uma estratégia de inovação. Um elemento ainda mais importante na inovação aberta é que as parcerias ocorram no âmbito das cadeias globais de valor, por isso, nós temos linhas de apoio que permitem itens importados, que podem envolver insumos e também parcerias, transferências de tecnologias e desenvolvimento conjunto, para citar algumas possibilidades”, lista Respondovesk.

Segundo informa o gerente do Departamento Operacional de São Paulo da Finep, as linhas também variam conforme o grau de inovação e risco da proposta. A linha de Inovação Pioneira, por exemplo, apoia atividades do setor florestal que têm a ambição de trazer novos produtos e processos ao menos para o mercado nacional, com taxas que podem ser tão baixas quanto TJLP-1%, se houver parceria com instituições de pesquisa e bônus para garantia financeira. Há também a linha de inovação para competitividade, quando os produtos e processos desenvolvidos já existem, mas que ajudam a trazer melhor dinâmica de competição, com taxa de TJLP, e a linha de Inovação para Desempenho, com taxa de TJLP+1%, em ambos os casos, considerando bônus de garantia financeira e parceria com instituições de pesquisa. Estas linhas permitem prazo de carência de três anos e 10 anos no total, podendo chegar a 4 e 12, respectivamente, no caso da Inovação Pioneira. A descrição completa das linhas está disponível no endereço: http://www.finep.gov.br/a-finep--externo/condicoes-operacionais.

Na visão de Respondovesk, há um grande potencial econômico em novos projetos focados na substituição de fontes não renováveis por recursos renováveis, no reaproveitamento de resíduos da atividade industrial e no desenvolvimento de bioprocessos mais eficientes que aqueles utilizados atualmente, apenas para citar alguns exemplos. “No entanto, esse potencial econômico ainda está muito longe de ser plenamente aproveitado em um País com tantos recursos naturais e possibilidades como é o Brasil”, pondera. “Este apoio é fundamental para a bioeconomia, pois nesta área os projetos possuem elevado risco tecnológico e precisam passar por diversos testes antes de irem ao mercado com segurança”, avalia.

Para ele, a ABTCP tem uma função de grande importância neste cenário, tendo em vista seu histórico de atuação no setor e a amplitude de seus relacionamentos e influência dos mesmos. “A ABTCP faz com que as empresas associadas tenham uma interação muito qualificada com a Finep, possibilitando o conhecimento das linhas de financiamento e esclarecendo dúvidas durante o processo. A Associação ainda tem uma capacidade muito grande de unir os atores do sistema de inovação neste setor, fomentando parcerias tecnológicas entre empresas de maior porte, instituições de pesquisa e startups. Esta entidade é também um grande gestor do conhecimento deste setor, organizando publicações, eventos e trocas de melhores práticas”, afirma, ressaltando que a capacidade de representação e articulação institucional da ABTCP permite levar adiante pautas relevantes para o melhor desempenho da indústria.

Por parte da Finep, Respondovesk enfatiza que há grande interesse em intensificar a interação com o setor. “É uma indústria que certamente tem muito espaço para crescer no que diz respeito à inovação. As empresas têm a Finep como um ponto de apoio. Já tivemos contrato firmado com grandes empresas do setor e gostaríamos de estreitar ainda mais esse diálogo a partir dos projetos colaborativos. O Departamento Operacional situado em São Paulo, inclusive, reúne áreas com enfoque bastante claro à indústria de papel e celulose e com diferentes frentes que englobam a inovação.”

Nereide de Oliveira, responsável pela área de Contratos e Propriedade Intelectual do IPT, também avalia como positiva a atuação da ABTCP neste intermédio entre empresas, fontes de fomento e instituições de pesquisa. “A Lei da Inovação (Lei número 10.973/2004) tem contribuído com a prática da inovação aberta. Desde que foi criada, vem passando por um amadurecimento cultural e, agora, de fato estamos conseguindo trabalhar de forma mais efetiva. As associações que representam diferentes segmentos industriais têm tido um papel fundamental nesse processo”, contextualiza ela. Como exemplo, Nereide cita um projeto intermediado pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), que facilitou a comunicação entre o IPT e empresas do segmento para desenvolver uma base nanotecnológica útil e de interesse de players concorrentes. “Consideramos esse projeto um case de sucesso. Com intermediação da ABIHPEC, uma associação muito forte e atuante na indústria de cosméticos, chegamos à participação de quatro empresas do setor de cosméticos. Um terço dos recursos necessários ao projeto foi porte público, ao passo que outro um terço ficou a encargo do IPT e um terço restante foi dividido entre as quatro empresas participantes. O resultado foi a construção de uma tecnologia usada por cada uma em produtos que não concorrem entre si”, descreve ela.

A responsável pela área de Contratos e Propriedade Intelectual do IPT avalia que, desde a promulgação da Lei da Inovação, o movimento em prol da inovação aberta levou a um alinhamento mais prático. “Passado esse processo de entendimento da atuação de cada ator da inovação aberta, vemos essa parceria se desenrolando de forma mais eficaz. Hoje, temos uma facilidade muito maior de dialogar com os setores produtivos, com mais abertura para negociação. Assumindo esse papel de intermediárias, as associações somam mais um elo participativo nesse processo de integração desse ecossistema de inovação”, faz o balanço. “Da nossa parte, conhecer o setor pelas respectivas associações facilita o trabalho. Para as empresas, o papel das associações como conector funciona igualmente bem, trazendo, inclusive, o aspecto da confiança e transparência. Uma associação com uma rede estruturada leva a um entendimento uniformizado. As empresas passam a conhecer a fundo os mecanismos que a instituição pode oferecer e se sente segura, pois sabe que aquele modelo vai ser replicado a todos os participantes envolvidos. Esse intermédio ajuda, inclusive, a superar gargalos como o da confidencialidade, preocupação ainda existente entre muitas empresas”, adiciona ela.

A aproximação entre associações de diferentes segmentos industriais seria mais uma aposta benéfica ao fortalecimento do conceito de inovação aberta, na visão do responsável do Departamento de Análise de Mercado e Parcerias do IPT. “Seria uma forma de setores que ainda não investem tanto em inovação se aproximarem daqueles que são líderes de P&D no Brasil e terem uma dimensão do perfil e do trabalho realizado por eles”, sugere Tukoff-Guimarães. “Ter parceiros fortes, como são as associações, fazendo essa ponte entre suas associadas e as Instituições de Ciência e Tecnologia do País fortalece o sistema nacional de inovação de forma geral”, diz.

Ainda na avaliação de Guimarães, os entraves que dificultam a prática de inovação aberta se diferem entre empresas de grande e pequeno portes. “Enquanto a falta de recursos e a dificuldade de acesso a empréstimos costumam ser impeditivos para pequenos players, para os grandes, muitas vezes, há falta de entendimento sobre todas as possibilidades que as instituições de pesquisa têm a oferecer”, pontua. “Lançamos um piloto na Embrapii em que tínhamos R$ 90 milhões disponíveis para investimento. Desse total, usamos apenas R$ 54,8 milhões, ou seja, sobrou recurso para fazer P&D. Isso deixa claro que há iniciativas que podem ser melhor exploradas”, exemplifica, incentivando a disseminação de informações para ampliar a prática.

Tenório, responsável pela Unidade Embrapii Tecnogreen, enxerga que a cultura de inovação ainda não está totalmente fortalecida no Brasil. ““Ainda temos um caminho a percorrer, tanto por parte do setor empresarial quanto da academia. Para mudar este cenário é preciso começar pela ampliação do prazo para encontrar os resultados, com metas de médio e longo prazos. Projetos colaborativos costumam ter essa característica, o que requer, portanto, uma mudança de visão sobre eles”, pontua.

Dando enfoque à aproximação da indústria de celulose e papel, a diretora do Instituto Senai de Inovação de Biomassa, avalia que o setor já demonstra bastante consciência sobre a necessidade de promover interações e buscar novas soluções na forma de inovação aberta. “Trata-se de um setor que detém um conhecimento profundo sobre uma matéria-prima chave na bioeconomia e que já tem a sensibilidade de se antecipar às mudanças que deverão ocorrer nos próximos anos. Espero que a Rede de Inovação promovida pela ABTCP amplie as nossas parcerias e alavanque o desenvolvimento de trabalhos conjuntos. O Instituto coloca-se à disposição para ser demandado por essa indústria”, destaca Carolina.

O setor sob a sua própria visão

Passados dois anos do alarde que fez à indústria nacional sobre a mobilização conjunta dos demais grandes players globais da indústria de base florestal, o vice-presidente da Pöyry enxerga que as empresas brasileiras estão mais conscientes sobre tal gargalo. “Naquela época, já se discutia muito o desenvolvimento de novos produtos com foco em sustentabilidade e a potencial diversificação da indústria de base florestal. Muitas empresas, inclusive, já tinham começado a dar mais enfoque ao seu planejamento em P&D. O que ainda era inexistente, era um esforço conjunto semelhante ao que estava sendo feito lá fora. Hoje, as empresas estão mais conscientes sobre a necessidade de reunir esforços em prol de objetivos comuns – até mesmo pelas particularidades que temos no País. Não dá para replicar o que vem sendo descoberto em outros países. Precisamos de desenvolvimentos próprios, focados na nossa matéria-prima”, opina Farinha.

Na visão de Francisco Razzolini, vice-presidente do Conselho Executivo da ABTCP e diretor de Tecnologia Industrial, Inovação, Sustentabilidade e Negócio Celulose da Klabin, as empresas do setor já estão bem alinhadas com o desenvolvimento de projetos voltados ao uso mais completo da madeira e demais frentes inovativas. Prova disso é que alguns desses players estão em fases avançadas nas pesquisas que levarão à fabricação de novos produtos. “Há empresas com laboratórios próprios, montando unidades piloto e trabalhando no seu portfólio individualmente. Mas, pensando em um sentido geral, há muitas oportunidades a serem avaliadas pelo setor”, diz ele sobre a necessidade de atuação conjunta paralelamente à individual. “A inovação não se trata apenas do aspecto tecnológico ou do desenvolvimento de novos produtos a partir dos componentes da madeira. Ela permeia a nossa indústria como um todo, desde o alto grau de automação e digitalização que estamos buscando hoje, com os avanços da Internet das Coisas, até atividades como formação e aprimoramento profissional da mão de obra e redução de uso de água, de energia e insumos diversos”, frisa sobre o enorme guarda-chuva que abrange o tema inovação.

“Temos muito a avançar, mas o fato de já termos iniciado a caminhada é uma boa notícia”, avalia Gabriela sobre a iniciativa em andamento. Para a coordenadora da Comissão de Biorrefinaria da ABTCP, o grande desafio das empresas do setor encontra-se na forma de construir uma visão integrada para se fortalecer e se diferenciar em relação aos demais segmentos industriais, sem deixar de lado o planejamento estratégico individual. A resistência da própria indústria em compartilhar certos conhecimentos e priorizar desenvolvimentos internos, em vez de maneira compartilhada, são mais desafios práticos que se instalam na rotina das empresas. “As universidades e os institutos de pesquisa precisam estar mais próximos da indústria para entender as suas demandas”, defende a aproximação para superar o gargalo ainda existente. “A criação de um Road Map também ajudaria a enxergar o grau de maturidade atual e prospectar o futuro das tecnologias, assim como avaliar o status dos competidores, inclusive de outros segmentos da indústria”, cita mais uma sugestão.

Ari Medeiros, atual presidente do Conselho Executivo da ABTCP e diretor industrial da Veracel, reconhece que essa consciência a respeito da necessidade de articulação setorial é recente entre os players da indústria nacional. “Os nossos desafios passam justamente pelo estabelecimento de uma agenda estratégica de médio e longo prazos, se quisermos ser competitivos no cenário da bioeconomia. A Rede de Inovação vem para suprir essa carência e criar condições para que o setor fique menos vulnerável às questões desafiantes que vêm pela frente”, diz sobre os desafios relacionados à amplitude do modelo de negócio atual. “A ABTCP será a porta-voz dessa missão, desempenhando o papel de propulsora dessa lavancagem técnica que o mercado futuro está pedindo”, completa.

Carlos Augusto Soares, que encerrou sua gestão como presidente do Conselho Executivo da ABTCP no final de 2017, e atua como gerente corporativo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Klabin, reforça o papel da ABTCP neste processo de amadurecimento da competitividade futura da indústria de celulose e papel. “Nós, como técnicos representando a Associação, temos de dar enfoque à perenização da entidade. A ABTCP tem de continuar o trabalho que vem realizando a favor da capacitação das pessoas e demais aspectos que compõem a competitividade do setor.”

O diretor executivo da ABTCP tem visão semelhante sobre a necessidade de a Associação fortalecer a própria competitividade. “Trata-se de um projeto igualmente importante ao setor e à perenidade da ABTCP, tendo em vista a necessidade de manter a sustentabilidade econômica da Associação. Como empresa, precisamos atuar estrategicamente para desenvolver produtos e projetos que gerem resultados positivos aos nossos associados e à entidade em si”, destaca Berni.

Vale frisar que a abordagem moderna proposta pela Rede apresenta uma série de vantagens às empresas participantes. “Considerando que a diversidade de projetos que podem ser desenvolvidos por este setor é enorme, os ganhos se refletem justamente na possibilidade de participação em diversas frentes. Por mais estruturada que seja a área de Inovação de uma empresa, há necessidade de escolha entre as linhas de pesquisa. Os projetos compartilhados são uma forma de ampliar essa atuação, com riscos diluídos e custos menores”, enfatiza Neto, líder do projeto. “Estimular a prática da inovação aberta permitirá um trabalho mais amplo da indústria de celulose e papel em diversos aspectos que compõem a competitividade, inclusive entre as empresas que ainda não investem tanto em inovação”, completa sobre os benefícios da Rede ao setor.

Na prática, informa Viviane, as empresas interessadas em desenvolver algum tipo de projeto irão contratar a ABTCP, que, por sua vez, contatará o centro de pesquisa mais adequado e estruturará juridicamente o projeto. “A Associação irá disponibilizar uma ferramenta para as empresas desenvolverem os projetos que considerarem mais pertinentes, sejam incrementais ou disruptivos”, descreve ela.

É fato que o setor tem potencial para seguir como um player pujante por um bom tempo. Pavan pondera que, para isso, a competitividade desenvolvida deve ser suficiente para manter a indústria gerando valor para todos os seus stakeholders. “Precisamos estar atentos à transformação à nossa volta, que promete revolucionar nossos comportamentos, nossas dependências e os atuais modelos de energia, transportes, entre outros”, alerta o representante do Comitê de Inovação da ABTCP. “Já é fato que o principal vetor de inovação deixou a grande empresa e está agora capilarizado em empreendedores, alavancados pela tecnologia e pela informação disponível. Nossa indústria precisa enxergar as alternativas de negócio não apenas como oportunidades, mas como forma de mantê-la sustentável (em todos os aspectos) por muito mais tempo. Nossos concorrentes internacionais já sentiram essa necessidade e estão se reinventando”, conclui, sublinhando que não haverá espaço para os last movers.


 Nota: para obter mais informafões sobre a participação em projetos desenvolvidos pela Rede de Inovação, contate Viviane Nunes, coordenadora técnica da ABTCP, pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou pelo telefone (11) 3874.2709.